27 de nov de 2011

Sebo é o barato



Antigamente quando não se existia luz elétrica usavam-se velas para a leitura em ambientes escuros, as velas eram feitas de gordura de sebo e iam derretendo e sujando os livros, existe também a ligação de leitores vorazes que iam em todo lugar com seus livros que acabavam ficando ensebados, por isso aqui no Brasil os alfarrabistas vendedores de livros usados ficaram conhecidos como "caga-Sebos" e logo as lojas que vendiam livros usados como Sebo. 

Já Silveira Bueno (Grande Dicionário Etimológico Prosódico da Língua Portuguesa), que classifica: “Do particípio presente “sapiente” se fizeram várias derivadas: “sabença” (“sapientia”), “sabente” e desta forma “absentar-se” em espanhol, “asabentar” em provençal, catalão, correspondendo ao italiano “insaventire”, tornar-se sábio, eruditar-se, instruir-se, donde o português arcaico “assabentar”, “sabentar”.

Vamos colocar um pouco de  poesia nessa parada aqui:

SONETO DA BUQUINAGEM
Buquinemos, amiga, neste sebo.
A vela, ao se apagar, é sebo apenas,
e quero a meia-luz. Amo as serenas
angras do mar dos livros, onde bebo

— álcool mais absoluto — alheias penas
consoladas na estrofe, e calmo, e gebo,
tiro da baixa estante sete avenas
em sete obras que pago e que recebo.

Amiga, buquinemos, pois é morta
Inês de antigos sonhos, e conforta
no tempo de papel tramar de novo

nosso papel, velino, e nosso povo
é Lucrécio e Villon, velhos autores,
aos novos poetas muito superiores."

Carlos Drummond de Andrade

"Buquinemos" vulgarmante podemos trocar por garimpemos, ou do Francês Bouquiniste nome usado para quem vende livros usados por lá, a palavra deriva do cheiro de bode, e fizeram a ligação com o cheiro de livros velhos; sebentos aqui ou com cheiro de bode na França, esse é o melhor lugar que podemos imaginar para garimparmos, como disse Drummond nossos velhos autores muito superiores, e que eu comecei a frequentar com 15/16 anos quando passei a trabalhar  ali no Jardim América (Veja).

Com a gaita do meu primero salário comprei um radinho de pilha da marca National que durou até pouco tempo acreditem, e fiz a minha primeira visita em um Sebo na rua Lisboa com a Av. Rebouças onde comprei um Vinil do Waldir Azevedo e fiquei observando os mais velhos dedilhando calmamente as colunas e colunas de registros.
Na época não existiam os CD e eu comprava meus discos de vinil do Bezerra da Silva lá no largo de Pinheiros em frente a Igreja da rua Butantã na Simão discos e fitas, alguém lembra? Então ir ao sebo na época também era opcional entre comprar novo ou usado.


Foi quando comprei um Bandolim (não sei tocar até hoje), com o tutu da mensalidade do curso técnico de eletrônica que eu fazia aos sabados lá prós lados da Santa Cecilia, que comecei a revirar aquelas lojas de disco de forró da região da estação da Luz, sempre tinha disco de samba misturado com os do Genival Lacerda, porque até hoje não sei.

Ai comecei a ir atrás dos discos do Jacob do Bandolim, lembro que ali do lado da 14° delegacia na Rua Dep. Lacerda Franco tinha um sebo, Edgard Discos, uma casinha que você ficava meio sem saber se podia entrar ou não pois a fachada  era de uma residência mesmo.

Recordo que a primera vez que entrei, fui atendido por uma moça e perguntei aonde ficava os discos do Jacob? Ela ficou meio que surpresa e sem saber, até que um senhor de cabelo branco veio e me levou ao tesouro, comprei o registro fonográfico, meu salarinho ia nessa todo mês pois não era baratinho como hoje.



Entre os discos do Jacob que comprei no sebo, nesse RCA CAMDEM calb-5172 um importante texto na sua contra capa pode ser observado, pois se trata de um reprise de velhos discos de 78 RPM um trabalho de resgate da própria gravadora pelo tamanho sucesso e procura que outros relançamentos obtiveram, vale lembrar que nenhum deles foi transformado em CD.

Um outro sebo que também gostava de ir era no Eric Discos, lá predominavam o Rock, Jazz e Bossa Nova mas sempre achava alguma coisa da nossa praia, este sebo fica até hoje na Rua Arthur de Azevedo com a Antonio Bicudo e inspirou um filme nacional que vale muito a pena vocês assistirem: é o Durval Discos.

Outro local muito agradável e que bato cartão até hoje com minha familia é na praça Benedito Calixto na feira de artes aos sábados, lá tem várias barraquinhas com muita coisa boa, além de poder curtir um choro ao vivo e saborear um acarajé e os doces de compotas.

Choro na praça

Voltando aos sebos o  Sebo do Messias  na praça João Mendes no Centro também possui um enorme acervo e um site com loja virtual, mas uma visita funciona muito melhor.

Comprar pela internet é sempre um risco de duplo sentido, além dos problemas eventuais de postagem pode ser que o disco esteja exatamente com a sua faixa preferida riscada.

A exemplo importei essa pérola de valor inestimável lá da Cidade Maravilhosa, chegou aqui em São Paulo sem nenhum arranhão por R$20,00 já incluso o sedex .


Faixas
                                                                             
01 sandália de prata
02 vem amor
03 afirmação
04 mulher de malandro
05 vingança
06 onde a cobra é bicho manso
07 zomba
08 criança louca
09 remendo de um nada
10 meu único desejo
11 erva daninha
12 pense bem
 
Outra dica é visitar o Centro Cultural Vergueiro que possui 45.000 discos de 78 rpm, 30.000 discos de 33 rpm e 2500 CDs, é só pegar o fone espetar no chão e curtir, eu tinha até uma carteirinha difícil de tirar na época para trazer para casa as partituras, não sei se existe isso ainda pois tinha gente que violava as obras e passaram a liberar somente para tirar as "copias fotostáticas" la dentro.

A pouco tempo na rua em que trabalho, onde também funciona uma loja de instrumentos musicais  usados e eletrônicos de segunda mão, por um golpe de sorte encontrei num cantinho no "chão"  as seguintes preciosidades.

R$5,00

R$5,00

R$5,00

R$5,00

Só existe uma forma de levarmos essa turma de volta para o lugar que merecem, nas estantes de lançamentos das mais requintadas lojas de shopping center, e nas rádios de FM, quando aprendermos que o velho (?) se renova a cada instante para quem  o faz presente e assim se torna eterno.

Então fica esta dica, quando ver a placa Sebo já sabe, meia volta e "cai pra dentro" quem sabe o que o destino guardou para você.

E meu incentivo para a sua procura, por quê?


Isto é Nosso - Jacob do Bandolim

Não sou  colecionador,  pesquisador,  nem  pirateador  apenas amante de nossa cultura que é rica  sim senhor.

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