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31 de out. de 2011

Tristeza? só nas músicas - Nelson é 100

                                                 
Atualizado em 02/11/2011


Nelson Antonio da Silva nasceu em 28 de Outubro de 1911 na cidade do Rio de janeiro. Seus pais eram, Maria Paula da Silva, que era lavadeira no Convento das Carmelitas e levava Nelson para ter aula de catecismo e Brás Antonio da Silva que tocava tuba na banda da Policia Militar.
Nelson desde muito pequeno já fazia seus próprios instrumentos com caixas de madeira e arame para acompanhar seu pai e seu tio que tocavam violino nas reuniões de Família.
Nelson teve que largar os estudos ainda na 3ª serie para pegar no batente como ele mesmo dizia, foi trabalhar em uma fabrica de tecidos onde não ficou por muito tempo

Morou na rua Mariz e Barros na Tijuca, depois em Silva Manuel na Lapa, e para a Rua Joaquim Silva nos Arcos, depois foi para o subúrbio de Ricardo Albuquerque, até que, finalmente se estabeleceria no bairro da Gávea

Nelson começou a aprender a tocar cavaquinho sem instrumento pois não tinha dinheiro e vez ou outra conseguia um cavaquinho emprestado de alguém , seus primeiros companheiros de samba foram Brancura, Camisa Preta e Edgar.


                                          Choro do Adeus - Nelson Cavaquinho

Pegava as coisas de ouvido vendo Heitor dos Prazeres, Juquinha violonista e Mazinho do Bandolim, logo compôs seu primeiro choro "Queda" e começou a fazer show mostrando-se um exímio solista e conseguiu por fim não só comprar seu cavaquinho como também ganhou o apelido de Nelson Cavaquinho que o acompanharia para sempre.


Nelson e Heitor
Arrastado a força pelo pai da noiva Nelson se casa aos 20 anos com Alice Ferreira Neves com quem teve quatro filhos. Como a música não rendia lá muita coisa e tão pouco o suficiente para sustentar a casa Nelson recorre a seu pai que consegue para ele um posto de cavaleiro da Policia Militar, mas sua carreira não duraria muito pois nunca levava ninguém para o xadrez, muito pelo contrario como ele nos conta:

"Resolvi parar numa tendinha e deixei amarrado na porta o cavalo,(vovô) fiquei tanto tempo conversando com o Cartola, que quando saí da birosca, cadê o animal? Tinha sumido. Fiquei apavorado. E resolvi, assim mesmo, voltar para o quartel. Não é que quando chego lá dou de cara com o cavalo na estrebaria? O danado parecia que sorria pra mim pela peça que me pregou.” 
“Eu ia tantas vezes em cana que já estava até me acostumando ao xadrez. Era tranquilo, ficava lá compondo, entre as músicas que fiz no xadrez está “Entre a Cruz e a Espada"


Levando uma vida de boêmio sua carreira na Policia logo acabaria e seu casamento também, ele ainda se casaria varias vezes mais seu grande amor era uma moradora de rua chamada Lígia, ao qual mandou fazer uma tatuagem com o nome dela em seu ombro direito.

O fato de passar boa parte de sua infância em ambiente religioso com sua mãe tornou Nelson um verdadeiro cristão e místico desprendido totalmente de bens materiais, chegava a distribuir seu cachê entre bêbedos, mendigos e prostitutas, ao qual ele tinha grande amizade.




Por volta da década de 50 ele troca o cavaquinho pelo violão, mais continuaria usando apenas o dedão e o dedo indicador da mão direita para ferir as cordas.

Sua primeira canção gravada foi "Não Faça Vontade a Ela", de 1939, por Alcides Gerardi
Compôs mais de 600 sambas muito deles inéditos e esquecidos pois ele não costumava escrevê-los e sim guardá-los em sua memória, outro fato é que ele vendia muitos de seus sambas, até mesmo os de parcerias feitos com grandes sambistas como Mestre Cartola, que chegou ao ponto de desfazer a parceria para não perder a amizade com Nelson, que por sua vez argumentaria que vendera a sua parte de um samba não a do Cartola.



Muito embora seus sambas foram gravados por gente como: Elizeth Cardoso, Ciro Monteiro, Orlando Silva e Dalva de Oliveira, ele entraria em estúdio para gravar seu primeiro disco com quase 60 anos de idade devido as gravadoras acharem estranho seu modo de tocar e mais estranha sua voz.

                                                              Rei Vadio



História de um valente - Nelson Cavaquinho - José Ribeiro


Nelson e Cartola desfile da Mangueira
Ele não dava importância alguma se seus sambas seriam gravados ou não e continuaria a escrevê-los de forma mais constante, sempre em bares acompanhado de seu inseparável violão, chegava a ficar dias fora de casa onde em uma ocasião esqueceu umfrango assadodentro do estojo de seu violão que começou a cheirar mal dentro do bar.


Foi assim que conheceu seu parceiro mais constante Guilherme de Brito.

Conheci o Nelson Cavaquinho no Café São Jorge. Nelson já era um sucesso, quando passava de manhã no botequim, estava aquele aglomerado de gente em volta de uma mesa. Às vezes eu voltava de noite, trabalhava o dia inteiro, e lá estava o Nelson com o seu violão. Até que um dia eu me atrevi e cheguei perto dele com a primeira parte de um samba, que foi "Garça", e falei: "Ô Nelson, vê se você gosta aqui...". Ele disse que estava ótimo e fez a segunda parte. Dali em diante seguimos até o fim da vida e fizemos um trato de compormos juntos, só eu e ele. Foi muito boa a parceria e fomos leais até o fim da vida dele. Se bem que ele pulou fora duas vezes durante esse período e compôs com outro cara, mas foi muito bom. Se ele estivesse vivo, estaríamos com certeza até hoje ligados um ao outro”.




A primeira parte do sambaTatuagemGuilherme fez pois era muito discriminado por uma tatuagem de Índio que ele tinha, tatuagem esta que até tentou tirar com castanha de caju, o que acabaria apenas com uma cicatriz na testa do Índio, Nelson terminaria o samba com versos em homenagem a sua tatuagem do braçoLigia



Nelson era cultuado por gênios da MPB como Tom Jobim e Baden Powell.
Paulo Cesar Pinheiro que foi casado com Clara Nunes e era amigo e companheiro de Nelson estava sempre acompanhado de um gravador k7 onde registrou muita coisa inédita de Nelson e que acabaria sendo gravada pela cantora, sua grande intérprete.


Na década de 60 Nelson fazia diversas apresentações no Bar ZiCartola onde se tornou reconhecido pela mídia.
Teve participação no disco fala mangueira com Clementina de Jesus, Cartola, Carlos Cachaça e Odete Amaral de 1968

Gravou seu primeiro cd individual em 1970, e mais dois pela série documento e cantores da mpb. De 1972 e 1973
Vários artistas começaram a gravar seus sambas como : Nara Leão que gravou "A Flor e o Espinho" e "Luz Negra", Thelma Soares gravou um disco com suas composições, Paulinho da Viola, Chico Buarque, Leny Andrade e Beth Carvalho.

Paulo César Pinheiro, Beth Carvalho, Nelson Cavaquinho, Chico Buarque, João Bosco, Carlinhos Vergueiro, Cristina Buarque e Mauro Duarte de 1985  para um disco em sua homenagem

Esse reconhecimento musical trouxe a ele uma vida mais calma, conseguiu comprar uma casinha em Vila Esperança e casou-se novamente, sua esposa Durvalina que era 30 anos mais nova conseguiu afastar Nelson do Álcool e cigarros.




Nelson nos deixou em 1986 vitima de um enfisema pulmonar.

                         Euforia Nelson Cavaquinho, Eduardo Gudin e Roberto Riberti


Ao contrario do que se imagina, comparando suas letras sempre falando de morte, tristeza e desafetos amorosos, Nelson Cavaquinho era muito alegre e humilde. Um exemplo que muitos artistas deveriam prestar mais atenção, não deixou nenhum seguidor, mas uma imensa obra rica em versos e introduções de violão, que são dificílimas de imitar até hoje. Quem realmente é de Nelson Cavaquinho prefere ouvir seus sambas executados por ele mesmo e de forma mais reservada, longe de qualquer tipo de ruído, de preferência usando fones de ouvido e olhos fechados, esperando alguma escala improvisada nos bordões de seu violão e imaginando estar numa mesa de algum botequinho frente a frente ao mestre, pois assim era sua maior alegria cantar para quem realmente gostava de ouvi-lo. 



                               Desconsolo -"ainda decorando a letra" - acervo HBC
                                                             

               

Ficha Técnica:
Gênero: Curta / Documentário
Diretor: Leon Hirszman
Duração: 13 minutos
Ano de Lançamento: 1969
País de Origem: Brasil
Idioma do Áudio: Português






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Vídeo - TV



Programa Ensaio TV Cultura




Zé Keti & Dino 7 Cordas


Compadre Nelson Cavaquinho
Onde anda você
Já me disseram que deixaste de beber
o seu conhaque
Sua Genebra bem amada
em suas mil ou mais moradas.
Você cantava a noite inteira
Com a batida diferente do seu violão
E nos bares da cidade
Bebia um vinho rascante
A rouquidão em sua voz era constante,
bem constante
E na Praça Tiradentes
Cantava seus sambas prá gente
depois saía com a viola prá lugares diferentes
A Lua foi sua companheira
E hoje está de luto com a Estação Primeira
A Lua foi sua companheira
E hoje está de luto com o Morro da Mangueira
Sabemos que o Brasil
e o mundo inteiro te conhece
Eu bato palmas prá você
porque você merece
Onde anda, eu quero ver o seu parceiro
O Guilherme deve estar coroa
E aqui prá nós
A dupla é muito boa
Eu tambem já compus alguma coisa
Já fiz sambas com você
Se hoje sou poeta, tive muito que aprender
{ Enriqueceu os versos meus
{ O meu muito obrigado, adeus
{ meu criador






                         
              Família de Nelson fala sobre a homenagem feita pela Mangueira 





1 de out. de 2011

"Eu sou Escravo da Música"



Romildo Souza Bastos


Nascido em Pernambuco em 27 de Dezembro de 1941, filho de músico Romildo era cantor, compositor e oficial reformado da marinha
Foi para o rio de Janeiro em 1953 e logo passou a fazer parte da ala de compositores da Portela e mais tarde da Mocidade Independente de Padre Miguel.

Romildo escreveu inúmeros sambas de grande sucesso como:  A Deusa dos Orixás“, “A Rainha Ginga”, “Água de Sereno", “Conto de Areia”, ”Ela Não Vai Gostar de Mim“, “Flor Misteriosa”, “Natal de Fantasia” e “Partilha” entre tantos outros...

Elza Soares, gravou o samba “Primeiro eu” e Clara Nunes interpretou Conto de Areia”. O LP bateu recorde de vendagem para cantoras brasileiras com mais de 300 mil cópias vendidas, um feito nunca antes registrado no Brasil.
Elizeth Cardoso gravou “Aroeira”, “Cuíca e Viola”, “Flor Misteriosa” e “Água de Sereno” todos de 1974 e com a parceria de Toninho Nascimento.

Em 1975 Clara Nunes grava “A Deusa dos Orixás” e dai pra frente foi brasa por cima de brasa.

No ano de 1976 Elizeth Cardoso grava “Rio Seco” e em 1977 Clara Nunes grava “Senhoras das Candeia”, em1979 Roberto Ribeiro também grava “Partilha”, em 1981 Clara Nunes grava “Congada”, em 1982 a mesma grava “Menino Velho” e “ Vapor de São Francisco” e ainda Jorginho do Império em 1983 grava “Casa de Comodo”.


No ano de 1984 gravaram um disco especial de natal para Coca-Cola, também fez o samba vencedor para o desfile da Padre Miguel em parceria com Edson Show e a escola ficou em 2º lugar, mais seu samba tirou nota 10 de todos os jurados e levantou a avenida, nos anos seguintes Agepê grava “rainha Ginga” e “São Jorge da Costa Mina” no ano de 1990 Noca da Portela e Mussum gravam “Cabeça de Porco” dele com Noca e Toninho. 


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Romildo também chegou a fazer parte da ala de compositores da Portela com reconhecimento do próprio mestre Candeia.

No dia 07/05/1990 Walter Filé grava um belíssimo documentário que veio a dar inicio a série "Puxando Conversa" produzido pela TV Maxabomba com realização  CECIP.
Não tem como não se emocionar com tantas histórias vividas por Romildo e contadas por ele da forma mais autêntica, espontânea e divertida.
Confiram:



Menos de uma semana depois de gravar este video que acabamos de assistir  no dia "13 de maio de 1990"  vitima de um infarto Romildo se vai atendendo ao pedido dos seus Orixás


Seu nome jamais deve passar desapercebido quando citarmos e homenagearmos  os compositores da Portela e da Padre Miguel e cantarmos seus sambas, pois é muito comum se fazer referencia ao cantor intérprete e deixar escapar o nome do compositor. Á exemplo "canta aquele samba da "Clara"  um erro grave que todos nós cometemos com frequência infelizmente.

Essa fórmula de transformar versos  que lembram  muito ao forró, ao côco e a música nordestina de vocabulário rústico em geral  e colocar dentro do samba  com uma magnifica harmonia é uma coisa fantástica, um estilo único que chega a arrepiar.
Claro  dá trabalho decorar os versos, mas quanto mais se escuta mais agradável fica aos ouvidos, e a recompensa de ter no repertório um samba assim? 

                            "Moeda" com Clara Nunes


Um lindo samba para o terreiro do Salgueiro:


                            "Flor Misteriosa com Elizeth Cardoso"


Uma gravação muito rara na voz da divina Elizeth com esta mensagem em forma de samba:
                                         "Rio seco"


Como prova de profunda amizade os amigos e moradores da rua Pará em Mesquita através de muita luta e abaixo assinado conseguem na justiça pela lei de Nº 2035 de 1991  a mudança do logradouro e a rua passou a se chamar "Romildo Souza Bastos". 


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...Que jamais será esquecido 

22 de set. de 2011

Chico Santana é 100




Hino da Portela

Portela suas cores tem
Na bandeira do Brasil
E no céu também
Avante portelense para a vitória
Não vê que o teu passado é cheio de glória
Eu sinto saudade
Desperta oh! grande mocidade
As suas cores são lindas
Seus valores não têm fim
Portela querida
És tudo na vida pra mim.



Respeitando a tradição antes de qualquer coisa ouvimos o Hino da portela na voz de seu autor:


Francisco Santana

Nasceu no dia 22 de setembro de 1911, em Campo Grande, Zona Oeste do Rio de Janeiro.
Mudou-se para Osvaldo Cruz e logo se enturmou com os bambas da portela, e a convite de Alvaiade passou a fazer parte da ala de compositores, Chico trabalhava como lustrador de móveis.

A história de Chico Santana se funde a história da própria Portela, sua escola de samba a que tantos belos sambas dedicou, nas rimas de Chico sempre despontam palavras como: avante, vitória etc ... sempre incentivando os portelenses e também lembrando-lhes do mais importante, o passado glorioso da Aguia Guerreira, símbolo da azul e branca a querida Portela

Como compositor teve várias musicas em parceria com Alvaide e Casquinha e que Monarco conta em uma breve pasagem:



Chico Santana fez parte da velha guarda da Portela e compôs inúmeros sambas, inclusive o Hino da Velha Guarda da Portela:


Seus sambas foram gravados por inúmeros interpretes como Vania Carvalho, Cristina Buarque e Eliana Pittman:


Eliana Pittiman - De Paulo da Portela a Paulinho da Viola


Vania Carvalho - Pranto


Beth Carvalho - Silêncio

Mas foi com o Samba "saco de feijão" interpretado por Beth Carvalho que Chico fez mais sucesso chegando a emplacar nas trilha sonoras de novela para TV.

Chico "traidor que foi traidor e não traiu jamais" frase que ficou imortalizada na voz de Monarco, nos deixou no dia 26 de março de 1988, aos 76 anos, também deixou uma frase muito importante não só aos portelenses mais a todos nós "Desperta oh! grande mocidade"

24 de ago. de 2011

Pelos "Pagodes" da Cidade?

As linhas que seguem não têm um grande valor histórico nem musical para muitos, pois não trazem nenhuma biografia de algum mestre do Samba ou sambas inéditos, mas posso garantir e comprovar a veracidade dos fatos, pois eu mesmo em plena mocidade, “faz tempo”, pude ver com esses olhos que a terra há de comer, a transformação imobiliária e sócio cultural de uma rua aqui de São Paulo situada no Jardim América.

A Primeira vez que andei por ela foi na companhia de dois amigos maiores de idade, eu que era um moleque de 14 anos consegui depois de muita conversa entrar em um dos primeiros e mais tradicionais bares de samba de São Paulo, o Botecão.

Assim que entrei fiquei impressionado ao ver um grupo de samba mandando brasa e o salão repleto de dançarinos. Como alguém poderia cantar e tocar sem olhar para o braço do instrumento assim? No meio da fumaça de cigarro e tanto falatório o samba comeu noite adentro.

Por coincidência ou ironia do destino acabei voltando nessa rua para procurar meu primeiro emprego registrado em carteira, era em uma construtora civil como Office Boy, devia ter eu uns 15/16 anos. Por fim consegui o emprego.
Pelas tardes de Domingo na companhia de meus pais eu retornava a Rua João Moura, que se transformava na rua do choro.
Era um Palco armado atravessando a rua em frente ao Clube do Choro grudadinho com o Botecão.
Lá se apresentavam os maiores chorões, seresteiros e até sambistas do nosso Brasil, como o sobrinho do próprio Pixinguinha, Manezinho da Flauta, um senhor bem velhinho que soprava sua flauta de prata. 
Roberto Ribeiro e Martinho da Vila também já se apresentaram por lá, e tantos outros podia se ver de graça ali ao ar livre, um espetáculo.

Carlos Poyares - Regional do Isaias
Atração principal  nos 10 anos do Clube do Choro de São Paulo, e um dos fundadores e também atração da Rua do Choro (R. João Moura) no bairro de Pinheiros São Paulo.

Comecei a estudar Cavaquinho e com o contato de minha professora, fui convidado a fazer parte de um catado como pandeirista, pela primeira vez tocaria na noite e ganharia uma paguinha. O bar era o Cantinho da Vovó Belmira, acreditem se quiser na João Moura esquina com a Arthur de Azevedo, um pequeno barzinho que oferecia uma feijoada com uma pimenta brava a beça.

Eu acompanhava um já então falecido cantor chamado Rubão que ia de mesa em mesa e puxava o samba de acordo com a cara do freguês, e a gente ficava lá no palquinho batendo bem piano pra ouvir ele cantando sem microfone do outro lado do salão.
Mandava sambas que até então para mim eram desconhecidos como esses:


 


Com o passar dos anos passei a arranhar o cavaquinho, abandonei o pandeiro e inevitavelmente perdi a pegada, apenas mudei de número na rua, sai do Cantinho da Vovó e fui tocar no Brasileirinho Bar, ali aprendi a postura de músico e de bebedor profissional, se bem me entendem. Era comum olhar para o lado e ver o Manezinho da flauta ali sentadinho escutando nosso sambinha.

Aqui interpretados nas vozes de seus grandes autores, em minha forma de agradecimento por tantas alegrias, compartilho com vocês essas obras que fizeram parte do meu repertório naquelas noitadas, e que definem melhor essas lembranças.

 
 

No entervalo a gente retribuía a visita atravessava a rua e ficava ali de fora do clube do choro, só escutando os mestres lá dentro do clube mandando brasa.

Domingo o nosso cura ressaca era voltar a rua do Choro, e uma das apresentações mais inesquecíveis foi ver a divina Elizete Cardoso cantando há pouco mais de 2 metros de distancia e ver os olhos de um amigo já também falecido “Luis Gordo” se encher de lágrimas de tamanha emoção.

Na rua João Moura ficava também a quadra da Escola de Samba Tom Maior, acabei fazendo um sambinha de mesa por lá aos sabados com nosso grupo e acompanhando compositores que faziam sambas para as eliminatórias do desfile de carnaval, nunca chegamos a ganhar o samba, mais o que valia era participar.
Sede da Tom Maior 88/99
Uma família “tradicional” que segundo os músicos e batuqueiros, ou boêmios, levava até o sobrenome do homenageado “Moura” conseguiu na Justiça ou prefeitura tirar a rua do Choro de lá, e o clube acabou fechando juntamente com o Bar Botecão, que virou Bar Balancê e foi para uma outra rua ali perto. 
Quem hoje passa por lá se depara com uma agência dos Correios, o Brasileirinho e o Cantinho da Vovó Belmira foram demolidos e hoje dão lugar a dois imponentes edifícios residenciais.

Mais abaixo sentido Sumaré, onde ficava a quadra da escola de samba, mais precisamente embaixo da ponte, alguns desses distintos moradores dos edifícios ali de perto deram um jeitinho e tiraram a escola de lá alegando ser uma baderna e um barulho infernal, e hoje o local cede espaço ao sacolão da prefeitura e uma cooperativa de reciclagem.

Bom, eu que tanto atravessei esta rua de envelope na mão como mensageiro, depois com um pandeirinho sem capa e com meu cavaquinho, hoje passo atento pela rua olhando pelo retrovisor do carro, relembrando os amigos, os sambas por ali entoados, os acordes que continuam na minha lembrança e casado com uma ex-aluna de um colégio estadual que fica também na João Moura.

Sinto-me feliz e orgulhoso por ter presenciado ao progresso de minha cidade, sua história e fazer parte dela e triste ao mesmo tempo, ao ver a nossa cultura musical ser a cada esquina, a cada quintal e a cada residência, demolida para dar lugar a tantas casas noturnas que cobram tão alto o couvert artístico para se ouvir musica importada de um computador.

Todos esse fatos se deram em meados dos anos 80/90 enquanto muito sambista de valor hoje em dia estava soltando pipa, ou indo para os bailes do "Sandália", graças a Deus a missa segue muda-se o vigário e o sermão fica o mesmo, um verso do Candeia que eu gosto muito:

"Calma, calma, minha gente
pra que tanto bambambam
pois os blacks de hoje em dia
são os sambistas de amanhã!"

A todos músicos da noite, meu carinho e respeito

por:D'hora

17 de ago. de 2011

Hoje é dia de Graça!

17 de Agosto Aniversário do Candeia, hoje o mestre estaria completando 76 anos!





Fernanda

18 de jun. de 2011

Partido Alto

O "Partido alto" teve suas origens mais remotas na "Chula", e podemos defini-lo como uma variável do Samba.

Com um ritmo mais pausado em relação ao Samba tradicional a princípio não existiam versos apenas acompanhamento de instrumentos de ritmo, talvez dai tenha saído a definição de "Batucada" para o Partido Alto.

Muito ligado ao "Samba Duro" ou "Samba de Pernada" comum durante os cortejos de escravos que ocorria na Pequena África, assim chamado por Heitor dos Prazeres a região portuária do Rio de Janeiro, local onde se encontravam remanescentes de Quilombos da Pedra de Sal entre outros.

Naquela época já existia entre os escravos o "chefe do coro", responsável pelo tema que muitas vezes contava seu cotidiano, a saudade de sua terra natal e principalmente seu estado de espírito naquele exato momento e até pelo andamento do batuque.

O Partido Alto saia das salas onde eram realizadas as rodas de choro com flauta e cavaquinho.
Em outro ambiente para um apanhado mais reservado de sambistas, "uma elite", que era um grupo separado, um partido de gente denominado as vezes por "Samba Quebrado".
Este "Samba Quebrado" era tocado a base de cavaquinho, pandeiro, prato e faca e acompanhado por passos de danças como o "Miudinho" aonde era proibido tirar o pé do chão e dançar com as mãos nas cadeiras.

Só muito depois começaram a se entoar pequenos refrões nessas batucadas e assim como o repentista nordestino o "sambista de elite" de "alto nível" começou a improvisar seus pequenos versos aos refrões das batucadas.

Em um pequeno trecho narrado por Almirante, ele dizia que durante o velório de seu pai alguns sambistas e chorões entoavam em homenagem "versos de um samba muito triste" entre eles estava Catulo da Paixão Cearense, parceiro de Anacleto de Medeiros, e Ernesto Nazaré todos grandes chorões do inicio do século passado.




O samba de fundo cantado é "Rosa meu bem"
Intérprete: Fernando  Compositor Thomaz, J pela Gravadora Odeon nº 123019  gravação de 1925/27  Acervo Humberto Franceschi

Vejam como ele manda os versos de um modo bastante peculiar quase recitando a poesia, poderemos considerar como um partido?




Definido muitos anos mais tarde por Antonio Candeia Filho em que ele diz no documentário "Partido Alto" de Leon Hirszman
" O Partido Alto é a Expressão mais autentica do samba" ..
Não só do tema mais do clima que vai se criando aos poucos ..
Seria esta uma evidência de como eram versáteis os primeiros partideiros de plantão? confiram:






Com o passar do tempo e a chegada das escolas de samba e compositores de samba de enredo e sambas de quadras, o partido alto começou a tomar outra forma ganhando os "versos",  e a  "prosa"  seria esta uma resposta ao primeiro "verso"  do refrão.
E ai o Partido Alto ganhou grandes versadores de improviso como Brancura, Baiano, Paulo da Portela e muitos outros mais, inclusive grupos musicais como o Partido em 5, Partideiros do Plá que eram compostos em sua grande maioria por compositores das escolas de samba do Rio como a Portela, Mangueira, Salgueiro e tantas mais.

Alguns até preferiram seguir a linha do Partido Alto contrariando as regras do  espetáculo e da industria fonográfica, e mantiveram viva a essência do partido, como Aniceto do Império, que era capaz de dar entrevista com repentes deixando o repórter encabulado.
Uma frase dita por Aniceto do Império:
"Deus Fala Pela Boca do Povo"




Bezerra da Silva, Genaro e Bebeto de São João cantaram a vida barra pesada  da gente sofrida do morro.



Gente essa que a cada dia sofre mais, e se parece muito com os primeiros batuqueiros lá da "Pequena África" perseguidos por tanta desigualdade social, violência e corrupção e que seguem de ouvidos atentos, receptivos ao espírito espontâneo e arrojado dos nossos "Sambistas de Elite dos Chefes do Coral"


Meu carinho e respeito a todos Partideiros.

 *fontes de pesquisa:wikipedia, cifrantiga e youtube

22 de jan. de 2011

Fazendo Bonito no Samba


Chegando”
O primeiro passo é saber quando e onde a roda de samba vai acontecer, isso faz grande diferença ao frequentador, pois um samba em barzinho da Vila Madalena vai ser bem diferente daquele na casa do amigo do seu amigo, ou daquele feito em terreiros de comunidades.
Começando pela vestimenta, em salão fechado onde o espaço é disputado a unha evite roupas escuras e quentes e calçados desconfortáveis.
Pisões no pé acontecem, pare olhe e peça perdão.
Em quadra de escola de samba mesmo não sendo integrante da agremiação tente descobrir com antecedência as cores da escola para usá-las no dia do ensaio, isso é mais elegante e evita muita dor de cabeça.
Procure aprender a letra da escola não ficando em pé parado lendo o flyer, igual coroinha no altar, caia na roda e sinta o samba fluir você decora mais rápido assim.
Se o mestre sala e a porta bandeira vier pro seu lado faça reverência a escola, beije a bandeira.

Bicão”
Em quintais sempre há um clima de comemoração e festa descontraída regada a Cerveja e  boa picanha.
Procure saber se é uma parada do tipo cada um leva o que pode e chegue com uma caixinha de breja, ou refri, e se possível uma carninha.
Deixe na cozinha antes de cumprimentar a rapaziada, ou na mão de alguma tia da cozinha, jamais alastre sua colaboração, bebidas caras como Whisk e Vodca entregue na mão do dono da festa, perceba que de imediato ele vai colocar no centro da mesa de samba.
Se você presenciar isso como  terceira pessoa não encoste o dedo na garrafa antes que o samba de um breque e que o copo passe até sua mão.
Com a bebidinha, de um “gorpe” e já passe a bola de preferência para algum estranho, amizades muitas vezes nascem exatamente nessa conduta.
Posar para retratos só se for convidado, do contrário procure se afastar.
Quanto ao traje, camiseta regata, bermuda e sandália ou tenis - mulher casada evite roupas justas, decotes e mini saia, o respeito entre os sambistas é muito grande, porém em samba de quintal a portas abertas, sempre entra algum torcedor com camisa de time, comemorando a vitória do campeonato já com meia dúzia na cabeça, e como dizem, “essa não tinha placa de dono” e ai a confusão pode levar a festa por água a baixo.

Pica Pau”
Instrumento parado em cima da mesa ou embaixo dela não quer dizer que você pode pegar e sair batendo. Se você é tocador ou músico profissional não importa, espere que seja convidado por alguém da roda ou algum amigo que te apresente antes.
Jamais, nunca, de maneira alguma dê um toquinho no ombro de alguém que esta sentado e peça para tocar a próxima.

Canja”
Sempre que for convidado para dar uma canja, procure não mexer em afinação de instrumentos de cordas, não ande com seu instrumento a tira colo, a menos que faça parte do conjunto ou catado.
Em palcos não fique dizendo “alô som” ou peça mais retorno, pois o som já foi passado antes espere que o “mesa” faça algum sinal.
Agradeça a plateia e a quem te fez o convite quando descer.

No Gogó”
Em terreiro de Samba a Chapa é quente, evite bonés, estampas de surf e roupa escura, chapéu Panamá e boinas são muito bem vindos.
Nunca peça tom pra cantar se não for solicitado por alguém da roda, levantar o dedo indicador significa pedir um Dó Maior, apontando para baixo um Dó menor, mas prefira fazer isso em voz alta para que todos os acompanhantes da roda ouçam e não fiquem perdidos.
Seja calmo respire fundo e espere a batucada acentuar a marcação.Escolha um samba  de seu repertório que condiz com o momento e com o estilo da turma.
Lembre-se e pense que ali todos são sambistas, mas antes de tudo são seres humanos iguais a você, então haja de igual para igual, não tente se mostrar batendo mais alto ou gritando mais no refrão.
Se tiver que improvisar algum verso de partido alto, procure ouvir o tema, ou seja não exalte o local, ou fale da quizumba da nega, na  homenagem ao aniversariante, se não tiver um verso no pente ajude no refrão.
O Bom malandro diz no couro e no Gogó

"Vícios"
Beliscar a bandeja de carne com farinha somente na pausa, seria o mesmo que falar de boca cheia.
Se chegar meio alto de mé fique de canto e procure maneirar, se ficar de porre no meio do samba, procure ir embora.
O samba não é sinônimo de bagunça ou lugar para  ficar chapado e cair sentado no meio do bar esperando o cachorro lamber a cara.
Embora apreciemos uma purinha na roda pra descontrair os nervos, lave a alma cantando e sambando e fazendo novos amigos.
Drogas jamais.

"Assuntos"
Fale mal somente dos presentes que podem defender-se prontamente, dos ausentes pergunte porque não estão ali, como vão e que sente saudades.
Relembre episódios que tragam à imagem da pessoa,  quando você não “colar” no samba sentiremos sua falta acredite.
Ditado "se conselho fosse bom não se dava se vendia, mais existe um outro velho ditado menos conhecido "quem não escuta cuidado escuta coitado"

Roda de Samba Obra de Heitor dos Prazeres ano 1963 - Técnica Oleo s/ eucatex

Por: DaHora